sexta-feira, 18 de março de 2011

Jornada da Alma


Título Original: Prendimi l'anima, 2002
Direção: Roberto Faenza
Roteiro: Gianni Arduini (escritor), François Cohen-Séat (escritor), Alessandro Defilippi (escritor), Roberto Faenza (escritor), Elda Ferri (escritor), Hugh Fleetwood (escritor), Giampiero Rigosi (escritor)
Gênero: Biografia/Drama/Guerra/Romance
Origem: França/Itália/Reino Unido
Duração: 90 minutos
Jornada da Alma - Trailer

O filme “Jornada da Alma” retrata a história de Sabina Spielrein.  O tema central aborda a paixão entre ela e seu psiquiatra, o psicanalista Carl Gustav Jung. Na época do atendimento Jung ainda era discípulo de Freud.

Sabina foi uma das primeiras pacientes a ser submetida à associação livre, na busca da sua cura, cujo diagnóstico era Histeria. Seu transtorno teve início logo após a morte da irmã.

Segundo Jung, “O diagnóstico clínico é histeria, mas é mais complexo”.

O filme retrata também a tentativa de Jung em modificar os desumanos tratamentos a que eram submetidos os pacientes psiquiátricos.

Ao analista eram impostas a neutralidade e a impessoalidade diante do paciente. Hoje começaram a ser questionadas tais posturas no processo terapêutico.  No filme Jung diz ser preciso amar para ajudar o paciente.

Vemos esta mudança de postura na passagem, no início do filme, que simboliza a entrega da paciente e do terapeuta, no caso do filme analista. Sabina mostra seu testamento a Jung. Nele ela oferece sua cabeça, exclusivamente, a ele, Jung, para que a disseque e a estude. Em agradecimento ele a presenteia com uma pedra que simboliza sua alma.

Mesmo sabendo dos riscos que representa para ambos e das implicações éticas, os dois se entregam à paixão. A dúvida que me ficou é: eles realmente se apaixonaram (amaram) ou era apenas mais uma incógnita da transferência e contratransferência, presentes no processo de cura, no processo terapêutico (psicanalítico)?

Por fim, Sabina, em busca de si mesma, estuda medicina, especializa-se em psicanálise. Ela chegou, inclusive a trocar correspondências com Freud. Assim, ao percorrer o caminho da loucura – no caso dela Histeria – ela conseguiu promover a sua cura e de seus pequenos pacientes.         

Não podemos esquecer-nos do contexto histórico-social em que os personagens estão inseridos. A revolução russa.

Curiosidade:
Sincronicidade: o termo foi utilizado por Jung em 1929. A sincronicidade é os acontecimentos que se relacionam não pela causalidade, mas sim por relação de significados. É diferente da coincidência. O filme pincela em dois momentos a sincronicidade entre Jung e Sabina. Quando ele sente a fuga dela no hospital e quando ele sente a morte dela.

Diagnóstico:
CID10 - Transtornos neuróticos, transtornos relacionados com o "stress" e transtornos somatoformes
F44 - Transtornos dissociativos [de conversão]
Os transtornos dissociativos ou de conversão se caracterizam por uma perda parcial ou completa das funções normais de integração das lembranças, da consciência, da identidade e das sensações imediatas, e do controle dos movimentos corporais. Os diferentes tipos de transtornos dissociativos tendem a desaparecer após algumas semanas ou meses, em particular quando sua ocorrência se associou a um acontecimento traumático. A evolução pode igualmente se fazer para transtornos mais crônicos, em particular paralisias e anestesias, quando a ocorrência do transtorno está ligada a problemas ou dificuldades interpessoais insolúveis. No passado, estes transtornos eram classificados entre diversos tipos de "histeria de conversão". Admite-se que sejam psicogênicos, dado que ocorrem em relação temporal estreita com eventos traumáticos, problemas insolúveis e insuportáveis, ou relações interpessoais difíceis. Os sintomas traduzem freqüentemente a idéia que o sujeito se faz de uma doença física. O exame médico e os exames complementares não permitem colocar em evidência um transtorno físico (em particular neurológico) conhecido. Por outro lado, dispõe-se de argumentos para pensar que a perda de uma função é, neste transtorno, a expressão de um conflito ou de uma necessidade psíquica. Os sintomas podem ocorrer em relação temporal estreita com um "stress" psicológico e ocorrer freqüentemente de modo brusco. O transtorno concerne unicamente quer a uma perturbação das funções físicas que estão normalmente sob o controle da vontade, quer a uma perda das sensações. Os transtornos que implicam manifestações dolorosas ou outras sensações físicas complexas que fazem intervir o sistema nervoso autônomo, são classificados entre os transtornos somatoformes (F45.0). Há sempre a possibilidade de ocorrência numa data ulterior de um transtorno físico ou psiquiátrico grave.
Inclui:
histeria
histeria de conversão
reação histérica
psicose histérica

CID10  Transtornos da personalidade e do comportamento do adulto
F60.4 Personalidade histriônica
Transtorno da personalidade caracterizado por uma afetividade superficial e lábil, dramatização, teatralidade, expressão exagerada das emoções, sugestibilidade, egocentrismo, autocomplacência, falta de consideração para com o outro, desejo permanente de ser apreciado e de constituir-se no objeto de atenção e tendência a se sentir facilmente ferido.
Personalidade (transtorno da):
· histérica
· psicoinfantil

Prêmio:
Globo de ouro 20002 premio da imprensa Melhor filme estrangeiro

Para saber mais sobre Jung - Documentário C. G. Jung 

Documentário C. G. Jung Legendado - 1/2

Documentários C. G. Jung Legendado - 2/2



domingo, 6 de março de 2011

O discurso do rei


Título original: The King's Speech
Lançamento: 2010 (Inglaterra)
Direção: Tom Hooper
Atores: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Michael Gambon.
Duração: 118 min
Gênero: Drama

 O Discurso do Rei - Legendado


A fala de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo, diz tudo sobre o filme “O discurso do rei”. Um filme sobre Desafio, Superação e Tolerância.

CONTARDO CALLIGARIS

Todos os reis estão nus
Já está em cartaz (pré-estreia) "O Discurso do Rei", de Tom Hooper. O filme foi indicado ao Oscar em doze categorias; a atuação de Colin Firth (o rei) é tão inesquecível quanto a de Geoffrey Rush (o terapeuta).
Resumo. Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial.
O duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele?
O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema.
1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc.
Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno.
2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos.
Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos.
3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo.
4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare.
5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula - mesmo que seja só por um instante.)
Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara.
Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saisse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem.
Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.

Fonte: http://www.folha.uol.com.br/